Letras graúdas
Um novo artigo, agora com análise linguística
“Operários”, de Tarsila do Amaral. O Senado fala como eles? O que isso significa? Em “Letras Graúdas, Letras Miúdas”, meu novo artigo, busco uma resposta
Existe todo um ramo do pensamento contemporâneo dedicado à ideia de que as novas tecnologias têm acabado com a vida inteligente na Terra. Eu mesmo acabo soando como essas pessoas, com as quais eu às vezes concordo – mas nem sempre.
No substack Cultural Capital, James Marriott escreveu um ensaio que ficou famoso a respeito desse tema. Um dos argumentos centrais do ensaio é o de que, a partir da invenção do smartphone, em 2010, as pessoas passaram a perder o gosto pela leitura, com consequências nefastas sobre sua capacidade cognitiva, como mostra o rendimento médio em testes padronizados como o PISA, da OCDE (sim, é aquele da matemática). Esta é a sociedade “pós-letrada” (post-literate, no original em inglês).
É sempre bom quando a gente consegue ser concreto e específico nos diagnósticos. Marriott apresenta um gráfico extraído da revista The Atlantic.
Alguns aspectos dessa referência me chamaram a atenção.
O primeiro é o de que o gráfico da revista está maximizado, o que leva a alguma confusão. Com o zoom, a queda de 500 para 480 pontos de média parece gigantesca, mas significa redução de 3 a 4% no período todo. O declínio só se tornou sem precedentes no teste de habilidades de leitura a partir de 2018, uns bons oito anos depois da data assinalada por Marriott. O segundo é que Marriott usa a média dos escores PISA, mas talvez essa agregação não seja adequada: países populosos com má performance em um ano específico (e.g., Filipinas, que parece ter entrado na contagem justamente em 2018) podem ter influenciado o resultado. Talvez tivesse sido melhor usar mediana por país, por exemplo. Finalmente, Marriott não fala nada dos impactos da pandemia sobre os sistemas educacionais, embora o verdadeiro foco do exame seja o desempenho destes (e não a inteligência dos alunos). Nunca consegui prestar muita atenção em aulas online; se eu tivesse feito o PISA durante (ou logo após) a pandemia, meu desempenho provavelmente seria pior do que em um ano de aulas presenciais. Acho que não estou sozinho nessa situação.
Em suma, parece que, nesse aspecto, a leitura de Marriott está marcada pelo problema de correlação versus causação. Este é um desafio quando se trata de elaborar narrativas a partir de dados.
Nos meus trabalhos, tento abordar essa questão da seguinte forma: reviro várias vezes o mesmo dataset e busco interpretações mais ou menos convergentes a partir de diversos tipos de análise. Em “Plenário, Palanque, Estúdio”, meu primeiro artigo, traço um monte de hipóteses a partir de uma tese central – a de que os senadores têm priorizado a exposição nas redes sociais à interação com seus pares no plenário, possivelmente porque as redes têm maior alcance, podem ser impulsionadas por gestores de tráfego e se prestam a algum grau de controle pelo emissor da mensagem, ocasionando menos risco político.
“Letras Graúdas, Letras Miúdas“, meu novo artigo
Em “Letras Graúdas, Letras Miúdas”, procuro entender como isso ocorre a partir de um ponto de vista distinto, o da linguagem. O título faz referência ao meu objetivo primário quando me lancei a este trabalho: o de aplicar métricas de complexidade textual (“leiturabilidade”, no termo disciplinar – a facilidade de ler um texto) aos dados que vinha examinando. Acabei pesquisando muito mais do que isso.
Aplicadas aos discursos em plenário, as métricas de leiturabilidade indicam que os discursos se tornaram mais fáceis de se ler. A evolução da mediana anual de Flesch Reading Ease, talvez a mais famosa dessas métricas, evidencia esse fato.
Não nos contentemos com esse achado. A facilidade de leitura, aqui, varia em função do comprimento médio, em palavras, das sentenças que compõem o texto, e do número de sílabas de cada palavra. A medida me pareceu pouco adequada à língua portuguesa, marcada pelos polissílabos, e menos ainda a discursos, que se baseiam parcialmente na performance do orador – tom de voz, cadência, ênfase etc. Finalmente, está sujeita a um viés importante ocorrido na fase de coleta dos dados: o fato de que, nos discursos proferidos durante a pandemia, o registro deu-se por meio de vídeos, e esses vídeos precisaram ser transcritos com IA. O algoritmo de transcrição não usa necessariamente os mesmos critérios de delimitação de frases que usa um taquígrafo!
Um exame das classes gramaticais que compõem os discursos apresenta esse panorama sob um aspecto distinto. Vejam este gráfico:
A partir da estatística sobre a proporção mediana de cada classe gramatical, o gráfico mostra as variações ao longo do tempo, por classe. As oscilações da pandemia, aqui, já não representam um viés (já que o classificador, baseado em spaCy, foi sempre o mesmo), mas um dado valioso: elas mostram como a adoção do formato de vídeo mudou o padrão morfossintático dos pronunciamentos.
Poucas classes ficaram estáveis no período, e o ponto de inflexão parece ter sido a época do impeachment. Esse foi um tempo de muitas rupturas na política brasileira, inclusive nos discursos, como abordei no meu artigo anterior. A figura abaixo, que mostra a diferença entre 2007 e 2024, evidencia as classes que se expandiram e as que se retraíram:
Quase toda a parte analítica de “Letras Graúdas” explora a vanguarda de pronomes e verbos auxiliares na evolução dos discursos em plenário. O crescimento dos pronomes deve-se, em grande parte, ao aumento na frequência dos pronomes pessoais retos – notadamente, “eu” e “nós”, como se vê no gráfico abaixo.
Por sua vez, o aumento na proporção de verbos auxiliares (categoria de palavras estabelecida em um padrão internacional que equivale mais ou menos ao que conhecemos como verbos de ligação) está associado ao uso perifrástico do verbo “ir”, como em “vou fazer”:
O que essas mudanças significam? No artigo, esboço uma explicação baseada em teoria, abordando temas como pessoalização e democratização do discurso – ambas viabilizadas pela expansão das redes sociais nas estratégias de comunicação parlamentar. Uma das minhas principais referências, o linguista Douglas Biber, tem no currículo online uma seção com "atividades no tempo livre" – incluindo escaladas e esqui. Gostei disso; vou copiar no meu próprio currículo, um dia.
James Marriott, o ensaísta, usa estatística similar à da leiturabilidade no seu texto. Com base em um gráfico extraído da revista Economist, ele cita o fato de que os livros mais vendidos têm, em média, frases mais curtas, usando isso para sustentar o argumento central de que vivemos uma era “pós-letrada”.
O erro de Marriott, na minha opinião, é comparar comprimento de frases e palavras com letramento ou sofisticação intelectual. Em 1946, no início da série histórica mostrada no gráfico da Economist, George Orwell denunciou esse raciocínio no clássico “Politics and the English Language”, associando escrita complicada com, entre outros, autoritarismo e falta de transparência governamental. Um dos conselhos sobre prosa do autor de “1984” é representativo: “nunca use uma palavra longa quando uma curta basta”. Ideias parecidas embasam o movimento pela linguagem simples, que vem se fortalecendo em Brasília nos últimos anos, inclusive no Congresso Nacional.
Mas tem mais. O que é “um livro mais vendido”? Não temos aqui uma informação sobre gênero dos livros, mas este é um dado relevante. Um livro de suspense tende a ter frases curtas; um fluxo de consciência, frases longas; etc. Em outras palavras, pode ser que a diversificação temática dos romances mais vendidos tenha influenciado o gráfico. Finalmente, o fato de que o declínio parece cada vez menos acentuado (em outras palavras, a linha da média ficou mais “reta") a partir dos anos 2000 contraria a suposição inicial do ensaio, que parece responsabilizar o smartphone e as redes pelo encurtamento das frases dos best-sellers.
Meu ponto de partida para escrever “Letras Graúdas” foi um editorial do jornal Washington Post publicado em 2016, segundo o qual “Trump fala como um aluno de sexta série – e todos os políticos deveriam fazê-lo”.
O “elogio” baseia-se em métricas de leiturabilidade como as que usei em minha argumentação. Mas o artigo ignora uma diferença sutil: as métricas não apontam que o político norte-americano fala como uma criança, e sim que ele fala de um jeito que uma criança entende. As implicações de um e outro enunciado são distintas.
No Brasil, o bloco conservador largou na frente nos processos de pessoalização e democratização dos discursos. Oradores modernos, como o senador Cleitinho, destacam-se no uso de um registro conversacional e hiperbólico no plenário do Senado. A hipótese soa como um paradoxo: conversando com quem, se os apartes estão cada vez mais raros? O uso de cartazes na tribuna dá uma pista sobre a resposta.
O problema das novas tecnologias não é o declínio cognitivo de quem quer que seja, mas a influência que o modelo de negócios das redes (que são um negócio, e não uma “ágora” ou “esfera pública”) exerce sobre governo e representação parlamentar. Marriott acerta em relacionar populismo, linguagem emocional e TikTok, por exemplo. Mas vejo isso como decorrência das condições de circulação dos vídeos (o famigerado algoritmo), não do declínio mental da população – tese marcada por um orgulho geracional característico, em si mesmo um clichê das redes (pense naqueles papos de boomers, cringe, millenials, geração Z etc).
Um gráfico final, baseado na ideia de sentimento lexical (palavras negativas versus positivas), dá uma ideia sobre o que pode estar acontecendo:
Em outras palavras, o registro conversacional, que tanto cresceu nos últimos anos, é mais negativo. A política já não promete à população; a política reclama. Qual o papel da Constituição, a promessa cívica por excelência, nesse contexto? Vou explorar mais esse assunto no próximo artigo.













Sensacional para variar, Pedro! Essa sua análise já é histórica.